“Eles têm medo do que não entendem

Eles gritaram: “Isto não é música, é barulho

Vocês não vão a lugar nenhum com isso.”

“Hmhmhmhmhm, seus otários! Nós atropelamos vocês!

Nós passamos por isso”

(Camisa de Vênus, Passamos por isso)

Não gostaria de voltar à esse blog para comentar a mais recente investida contra o BDSM, se é que de fato ela vai se transformar em uma investida ou apenas deixar em quem assistiu, a sensação de uma perversão absoluta, de algo promíscuo, sujo, com pessoas que pensam que podem controlar a regra do jogo onde se meteram (o que na verdade não podem) e se prestam à papéis que são, minimamente, ridículos.

Se você não sabe do que estou falando, esclareço referir-se à celeuma criada pelo programa “Troca de Família”da TV Record o qual, afirmo, não assisti e não tenho interesse em ver também, dado ao fato puro e simples dessa rede de televisão ser ligada, de forma inacreditável já que a legislação proíbe a propriedade de televisões por parte de Igrejas, à Universal do Reino de Deus, a qual me recuso até a pronunciar o nome. Portanto, o que lerão aqui é uma reflexão até certo ponto “requentada” sobre o que nos aguarda enquanto praticantes e também, ao meu ver, um questionamento sério sobre a questão da luta por “aceitação” do BDSM na dita comunidade baunilha.

Tomei contato da questão através de um casal de amigos que me detalhou o que aconteceu no programa e confesso, com toda a sinceridade, que não me surpreendi. Em um dos contos do Edgar Allan Poe, ele discorre sobre uma expressão latina que acho interessante resgatar aqui, “quo bono”. O genial escritor americano elucidava que a expressão significava “em benefício de quem” e acredito que devamos perguntar, necessariamente, em benefício de quem foi feita aquela “reportagem” e em depreciação de quem ela também foi feita.

Desde que o mundo é mundo e as religiões se sistematizaram enquanto tal, a sexualidade foi um elemento a ser controlado no ser humano, uma forma de alienação da busca de Deus e uma visão patrimonialista que acabou por contaminar e ao mesmo tempo orientar as concepções religiosas em maior ou menor grau. Ao meu ver é impossível descontextualizar esse programa dessa lógica, especialmente em uma “modalidade” onde , para quem não a conhece, cabem bem as palavras perversão, sujeira, transgressão, imoralidade e , finalmente, um ambiente “demoníaco”, o contraponto a uma proposta supostamente ascética, moral e inspirado no uso “divino” da sexualidade apenas com fins de procriação.

Indo direto ao ponto, o que se pretende é criar uma clara afirmação que há um mundo do interdito, do proibido e do imoral em contraponto à uma visão supostamente ascética, equilibrada e permitida, uma visão que é indicada aos telespectadores , independentemente da religião, como uma forma “redentora” da prática sexual em contraponto ao espaço da perversão, da perdição e do demônio, representado por nossa prática.

Se isso não causa surpresa e é ponto pacífico, a questão que resta é do porquê de algumas pessoas ditas “do meio” concordarem em jogar o jogo proposto pelos fiéis escudeiros da IURD. Mais uma questão, ao meu ver derivada dessa: a confusão que temos em explicar para nós mesmos no que consistem as concepções, limites, pressupostos, limites éticos e outras questões correlatas não ensejaria uma grande confusão e que, no sentido negativo do termo, permita que qualquer um (até nós mesmos) façamos do BDSM um grande “saco de gatos”onde cabe tudo, em qualquer intensidade, de qualquer forma e com qualquer intencionalidade. Longe de propor um controle purista da prática, o que advogo é que façamos uma reflexão e deixemos claro se há um consenso (ou não), relativamente passível de ser costurado (ou não) a ponto de podermos indicar quais são as linhas mestras de entendimento, sem restrição às manifestações.

Outro fator que inclusive levou-me a repensar minha permanência ou não no meio, reflexão ainda não concluída, é a necessidade imperiosa de termos um olhar “para dentro” e verificar com honestidade e isenção se os nosso fundamentos encontram de fato respaldo na realidade, sejam eles expressos sobre os rótulos SSC, RACK, SSS ou o que for.

Será , de verdade, que o que foi expresso no programa não poderá, em algum momento e em alguma forma, ser considerado, de fato, BDSM? Essa é uma questão que não poderei responder mas que demanda alguma reflexão.

Mesmo que não seja a minha ou sua prática, caro leitor, definitivamente, em algum momento, o que foi exibido tem alguma relação clara ou tênue com o que estatuímos (ao menos em nossas concepções particulares) como sendo nossa prática, há mudanças de entendimento muito importantes em relação ao manifesto de repúdio proposto pela profane malign_{AN} e que muitos de nós,inclusive eu, assinamos. Ele represente, ao menos para mim, um repúdio em relação à um forte conteúdo ideológico, fator que analisaremos no próximo artigo.

(continua)

Um Comentário

  1. Caro Amigo,

    Já fui mais inocente a ponto de querer até me expor, até mesmo levantar a bandeira da aceitação do BDSM pela sociedade baunilha. Hoje ainda teria disposição para isso, mas certamente não a mesma esperança de sucesso.

    A forma como BDSM foi exposto no programa mensionado é um dos motivos que me levaram a ter menos esperança. Se não encontramos um mínimo de unidade entre os praticantes e o que foi ao ar é chamado de BDSM, ficamos ainda mais longe de obter aceitação e respeito.

    Não acompanho a programação da Record a ponto de saber o quanto a ideologia permeia os programas não religiosos (ao menos não deliberadamente religiosos), mas creio que esse tenha sido o menor dos problemas. Já assisti na mesma rede um programa que perguntava a opinião do publico sobre algumas práticas SM e o achei surpreendentemente imparcial. Ouvi um pastor da Record concluir o programa defendendo a busca de satisfação sexual. Mesmo sabendo que a defesa do sexo somente para a procriação não é em geral um padrão protestante, mas sim católico, fiquei positivamente surpresa. E entendi como uma certa evolução.

    Com ou sem más intenções, essa rede abriu um espaço para o tema BDSM. Creio que se os supostos praticantes de SM tivessem se mostrado pessoas responsáveis e respeitassem a consensualidade, até mesmo enfatizando que, como regra, na nossa comunidade não se força ou se constrange ninguem a fazer nada, o resultado final seria uma desmistificação, e não uma confirmação do preconceito contra o sadomasoquismo(aos olhos do publico leigo, que não terá, em maioria, condição de saber que o que foi mostrado tinha muito pouco de BDSM).

    Ao menos vejo um beneficio nesse evento desastroso. O repúdio. As manifestações de indignação. Os comentários em comunidades e em blogs. Vejo isso como um indicio de que a maior parte da comunidade BDSM não aceita qualquer “postura”. Não permitimos calados que qualquer um fale por nós e pinte de nós um quadro tão revoltante. Talvez isso mostre que somos sim abertos as diferenças e varias formas de ver o BDSM, mas que há certa unidade, ao menos na compreenção de que Sadomasoquistas não são o que foi mostrado na TV dessa vez.

    Quem sabe assim, antes de optar por expor de forma mais ampla o BDSM, as pessoas tomem um pouco mais de cuidado.

    Beijos mil! Saudades do tamanho do mundo. Espero que esteja bem e que logo possa te dar um abraço e ter o prazer imenso que é conversar contigo!

    tavi de ASGARD


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