Quando falamos em sadomasoquismo precisamos, em primeiro lugar, pesquisar, pelo menos um pouquinho, a respeito de Sade e Masock.
Donatien-Alphonse-Françóis, conde de Sade, mas conhecido como Marquês de Sade, nasceu em Paris em 1740. Tendo estudado no Liceu Louis-le-Grand, Sade se tornou capitão de cavalaria depois da guerra dos 7 anos. Aos 23 anos foi condenado à morte por praticar perversão sexual e tortura por prazer, numa jovem aldeã, mas foi indultado. Repetiu esses excessos outras vezes, mas sempre conseguiu fugir até que, aos 37 anos, foi preso e passou o resto da sua vida entre a prisão e o hospício.
Preencheu o seu tempo escrevendo suas peças, apresentando-as com os próprios loucos como atores. Sade fez do erotismo o ponto central de sua visão do mundo. Faleceu no hospício de Charenton, perto de Paris, em 2 de dezembro de 1814. Apesar de tudo, após sua morte, foi muito prestigiado por escritores conceituados. Suas mais conhecidas obras foram: Os 120 dias de Sodoma; Justina ou as Desgraças da Virtude; Julieta ou as Propriedades do Vício e A Filosofia de Alcova.
A palavra sadismo, encontrada nos dicionários significa perversão sexual em que a satisfação erótica advém da prática de atos de violência ou crueldade física ou moral infligidos ao parceiro sexual. Trata-se do erotismo cruel mencionado nos romances de Sade. O prazer obtido mediante sofrimento alheio.
Leopold Von Sacher-Masoch, escritor austríaco, nasceu exatamente 22 anos depois da morte de Sade, ou seja, em 1836, na cidade de Lemberg. Após publicar contos folclóricos sob diversos pseudônimos, Masock escreveu romances em que manifestava um erotismo dominado pela volúpia do sofrimento, que passou a ser chamado de masoquismo. Nos dicionários, é sinônimo de perversão sexual que leva a procurar o prazer na dor, ou perversão sexual em que a pessoa goza por ser maltratada, ou sente prazer em torturar-se.
Masock faleceu em 1895, em Hessen. Dentre as suas obras, uma nos chama a atenção: Vênus com peliça, escrita em 1870. Vale a pena ler.
Sadomasoquismo
Segundo Susan Wrigth, sadomasoquismo é uma orientação sexual ou uma forma de comportamento entre duas ou mais pessoas adultas. Esse comportamento pode incluir, sem estar limitado a isso, o uso de estimulação física e/ou psicológica com o objetivo de produzir excitação e satisfação sexual. Freqüentemente, há quem assuma o papel ativo (top ou dominador) e quem prefira o papel passivo ou receptivo (bottom ou submisso). Praticantes de sadomasoquismo podem ser heterossexuais, bissexuais, homossexuais ou transexuais.
Atualmente o sadomasoquismo tornou-se mais visível e tem surgido em filmes, propagandas, livros e músicas, tornando-se um lugar comum na televisão e, também, como assunto de piadas. A essência fica difícil de ser detectada, pois fica praticamente atrelada a estereótipos. Difícil de ser definido, o sadomasoquismo abrange uma grande quantidade de comportamentos, e a maioria das pessoas que o praticam não apreciam todos os papéis, práticas ou atividades.
Segundo Weinberg, Willians e Moser, autores do livro The social constituents of sadomasochism (1984), são cinco as características presentes na maioria das interações sadomasoquistas: a dominação e submissão, a consensualidade (acordo voluntário para participar do jogo (interação) e levar a respeitar certos limites e conteúdo sexual, a interpretação mútua (suposição de que as pessoas participantes do sadomasoquismo possuem o entendimento partilhado de que suas atividades são de natureza sadomasoquista ou similar e, finalmente, a role playing (as pessoas participantes assumem papéis para a interação – jogo – ou para o relacionamento que reconhecem não ser a realidade).
Sadomasoquismo é doença?
A socióloga Gini Scott, em seu livro O Poder Erótico (1983), examinou a dinâmica da subcultura sadomasoquista heterossexual e afirmou: “Diferente de psiquiatras e psicólogos que lidam primariamente com indivíduos psicologicamente problemáticos que se interessam por D&S [Dominação e Submissão], não os achei problemáticos psicologicamente ou nocivos à sociedade; ao contrário, um espírito de bom humor prevaleceu e os participantes pareciam, na maioria das vezes, muito atraentes, pessoas bem comuns, que tinham relacionamentos comuns fora da prática de D&S. Uma grande variedade de pessoas, com uma diversa gama de interesses eróticos, participa do sadomasoquismo. Seus antecedentes, atividades e atitudes são bem diferentes do estereótipo social que retrata o sadomasoquismo como uma forma de violência, mau comportamento ou descontrole cometido pelas pessoas psicologicamente instáveis, que procuram machucar os outros ou serem machucadas. No cerne da comunidade estão pessoas sensatas, racionais, respeitáveis, pessoas bem comuns. Desta forma, diferente de sua imagem pública, a comunidade é calorosa, próxima e sólida”.
Um dado interessante nos é fornecido pelo Novo Relatório sobre Sexo do Instituto Kinsey, de 1990. Segundo ele, “os pesquisadores estimam que de 5 a 10% da população americana pratica o sadomasoquismo por prazer sexual, pelo menos ocasionalmente, sendo a maioria das atividades de dominação, envolvendo dor ou violência reais. Muito freqüentemente, é o receptor (o masoquista) e não o doador (o sádico) que estabelece e controla o exato tipo e extensão das atividades do casal. Aliás, em muitas relações heterossexuais os assim chamados papéis sexuais tradicionais são invertidos, com o homem fazendo o papel de submisso, ou seja, o masoquista. As atividades sadomasoquistas também podem ocorrer entre casais homossexuais”.
De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-IV), sadomasoquismo, em si mesmo, não é uma doença mental. Nos critérios diagnósticos tanto de sadismo como de masoquismo, o DSM-IV estabelece que o sadomasoquismo somente torna-se uma disfunção diagnosticável quando “as fantasias, urgências ou comportamentos sexuais levam a sofrimento ou prejuízo clinicamente significativos (por exemplo, tornam-se obrigatórios, acarretam disfunção sexual, exigem a participação de indivíduos sem o seu consentimento, trazem complicações legais ou interferem nos relacionamentos sociais)”.
A medida que mais pesquisas vêm sendo publicadas sobre o assunto, principalmente nos últimos anos, a comunidade médica, incluindo a sua parcela dedicada à saúde mental, começa a aceitar que o sadomasoquismo não só é seguro como é também uma aspiração legítima.
Sadomasoquismo pode ser considerado violência doméstica?
Segundo Susan Wrigth “a violência doméstica, é um padrão de comportamento intencional de intimidação de um parceiro com o objetivo de coagir ou isolar o outro parceiro, sem o seu consentimento. O abuso tende, por natureza, a ser cíclico, numa escala crescente com o tempo, e caracterizado por pedidos de desculpas e promessas de que nunca mais vai acontecer entre intervalos dos episódios”.
Ela vai mais longe, diz que sadomasoquismo é voluntário, pois as pessoas que o praticam concordam com a troca erótica de poder por vontade própria e por livre escolha. São livres para sair do relacionamento a qualquer tempo. Por outro lado, o sadomasoquismo, diz ela, é consensual, pois todas as pessoas envolvidas concordam sobre o que vai acontecer. Mais, as pessoas que praticam o sadomasoquismo são informadas a respeito de todas as possíveis conseqüências envolvidas pela troca erótica e não só procuram como têm prazer com esse comportamento.
Finalmente, praticantes de sadomasoquismo têm grandes cuidados para que suas atividades ocorram da maneira mais segura possível. Machucar realmente a pessoa envolvida na parceria é negar sua capacidade de poder participar de atividades sadomasoquistas.
Pessoas que violam os limites descobrem muito rapidamente que estão perdendo as parceiras com as quais poderiam partilhar atividades sadomasoquistas. Para enfatizar esse ponto, grupos de apoio estão sempre promovendo encontros educacionais, onde são demonstradas técnicas de como atuar de maneira segura durante a cena.
Entretanto, devemos ressaltar que, como em qualquer grupo, podemos encontrar casos de violência doméstica entre praticantes do sadomasoquismo. Entretanto, em tais casos, a comunidade sadomasoquista não perdoa a violência e propõe que as vítimas procurem ajuda especializada.
Por que as pessoas praticam sadomasoquismo?
Segundo Susan Wright, assim como não sabemos por que algumas pessoas são heterossexuais e outras homossexuais, também não somos capazes de explicar por que algumas pessoas erotizam peitos e, outras, pernas. Não entendemos por que as pessoas desenvolvem algum tipo particular de erotismo.
O que, de fato, sabemos é que nenhum pesquisa encontrou característica alguma na infância, nascimento, etc, que seja mais comum entre os praticantes de sadomasoquismo do que no público em geral. Especificamente, não há indicação de que os praticantes de sadomasoquismo tenham sido mais ou menos susceptíveis a espancamentos ou tenham sido vítimas de abuso sexual ou outro tipo de abuso quando crianças.
Havelock Ellis, em seu livro escrito em 1926, Estudos da Psicologia do Sexo, diz claramente: “a essência do sadomasoquismo não é tanto a dor, já que a dominação dos sentidos é mais emocional que física. O masoquismo sexual ativo tem pouco a ver com dor e tudo a ver com a procura de prazer emocional. Quando entendemos que é apenas dor e não crueldade, o essencial nesse grupo de manifestações, começamos a chegar mais perto da explicação. O masoquista deseja experimentar a dor, mas ele geralmente deseja que seja infligida com amor; o sádico deseja infligir a dor, mas ele deseja que seja sentida com amor”.
São, Seguro e Consensual
As bases das atividades sadomasoquistas devem seguir as linhas do “são, seguro e consensual”. A pessoa que pratica o sadomasoquismo precisa conhecer as técnicas e preocupar-se com os itens de segurança que estão envolvidos no que está fazendo e atuar de acordo com esse conhecimento. Como em qualquer tipo de ato sexual, segurança envolve a responsabilidade das pessoas se manterem atentas e protegidas das Doenças Sexualmente Transmissíveis, incluindo a infecção pelo vírus do HIV. Por outro lado, é necessário que pessoas praticantes do sadomasoquismo saibam diferenciar a fantasia da realidade.
Avaliações fictícias sobre sadomasoquismo têm sido, muitas vezes, distorcidas com objetivos fantasiosos e, portanto, não representam a situação real dos relacionamentos que têm por base o sadomasoquismo. Finalmente, pessoas que praticam o sadomasoquismo precisam respeitar os limites impostos por cada um dos participantes durante todo o tempo. Assim, consentimento é o ingrediente primordial e fundamental do sadomasoquismo.
Lésbicas sadomasoquistas
Não consta que se tenha pesquisado o sadomasoquismo especificamente entre lésbicas.
Entre casais de mulheres, o consenso geral é que a prática de sadomasoquismo é quase inexistente. Raras são as exceções. Contudo não podemos dizer o mesmo quando nos referimos a essa prática entre parceiras que, geralmente, procuram não tocar no assunto.
Sabemos que há inúmeras adeptas dessa prática, e algumas fotos antigas podem comprovar tal afirmação, como as incríveis fotos publicadas pela Taschen, feitas entre 1890 e 1920 por fotógrafos anônimos, que ilustram essa matéria. Assim como as estatísticas das lojas de objetos eróticos, que afirmam vender amarras, algemas, chicotinhos e máscaras negras (vendas) para lésbicas em quantidade significativa.
(Fonte: http://carcereiro.110mb.com/info/i012-sadomasoquismo.htm)



