Arquivos Mensais: Junho 2008

Mãos

Método

Posição do escravo

Técnica

Motivação básica

Advertência

TAPAS NA CARA

Ajoelhado, mãos às costas, olhando para a face da Dominadora.

Tapa com a palma da mão estendida. Sempre é acompanhado de advertência oral, apontando a condição de escravo rebelde e mal comportado.

Castigo imediato por desobediência leve ou por mau comportamento.

Cuidado com a intensidade e a freqüência dos tapas. Use até uma intensidade média, e nunca ultrapasse 10 repetições, alternando os lados e mantendo um intervalo de no mínimo 5 segundos entre um tapa e outro. Pare imediatamente se o escravo se sentir ligeiramente atordoado.

SURRA NAS NÁDEGAS

Nádegas de fora ou inteiramente nu, deitado no colo da Dominadora ou no banco de castigos.

Mãos espalmadas, modificando aleatoriamente a intensidade, a freqüência e o alvo (nádega direita ou esquerda), de modo que o escravo não possa antecipar onde e qual a intensidade do golpe a ser dado. Geralmente acompanhado de “broncas repetidas”. Costumo, em seguida, deixar o escravo de castigo num canto do aposento, olhando a parede e com as nádegas à mostra.

Castigo motivado geralmente por mau comportamento social e/ou desobediência leve.

Cuidado que suas mãos também “esquentam” e podem doer. Use luvas para minimizar esse efeito.

Chicotes de montaria (e as “guascas”)

Método

Posição do escravo

Técnica

Motivação básica

Advertência

Chicoteamento nas nádegas e/ou na parte interna das coxas.

Em pé, atado a um gancho no teto, com ou sem barra de separação de braços e de pernas.

Corpo arcado para frente e amarrado no banco de punições.

Deitado na maca de massagens ou na cama.

Em posição de castigo (tórax encostando no chão ou na cama) e nádegas “empinadas”, com as pernas separadas.

As batidas com os chicotes de montaria são de intensidade sempre variável, dependendo da punição a ser administrada.

Gosto de usar a “guasca” na parte interna das coxas e a “guasca” pequena para punições genitais.

O chicote “inglês” de treinamento de cavalos é interessante porque permite batidas fortes e rápidas nas nádegas e nas coxas do escravo, que se assemelham a finas picadas de abelhas, conforme depoimento dos escravos. E sua haste flexível ainda pode ser usada como uma “vara”.

Geralmente reservo os chicotes de montaria para punições mais severas e/ou para deixar marcas na pele das nádegas do escravo. Quando as batidas são fortes, o escravo pode reclamar ou gemer. Aconselha-se aí o uso de mordaças.

Outra vantagem do chicote de montaria é o de poder se atingir, com boa precisão, mais vezes um mesmo local (uma batida sobre a outra) aumentando a intensidade da dor.

Fora das nádegas e da parte interna da coxa, utilizo o chicote de montaria para os mamilos, com ou sem presilhas atadas nestes, e para os genitais (nesse caso mais como efeito psicológico).

Açoites ou “Flogs”

Método

Posição do escravo

Técnica

Motivação básica

Advertência

AÇOITAMENTO CORPORAL

Em pé, atado a um gancho no teto, com ou sem barra de separação de braços e de pernas, mas oferecendo todo o corpo à ação do açoite.

As batidas são de intensidade sempre variável, iniciando-se as menores para aquecimento. Os movimentos são feitos nos dois sentidos das mãos – anterior e posterior – como nas batidas da raquete num jogo de tênis – direita e esquerda.

Aquecimento do corpo do escravo para castigo mais intenso posteriormente. Para demonstração da habilidade da Dominadora, especialmente quando é realizado com dois açoites iguais, simultaneamente e com ambas as mãos.

Evite sempre a região do rosto do escravo. Lembre-se que algumas tiras do açoite poderão atingir os olhos. Com açoites mais pesados evite a região dos rins.

AÇOITAMENTO GENITAL

Em pé ou deitado, preferencialmente de frente, com as pernas bem abertas, expondo os genitais. É bastante conveniente amarrar as mãos e os pés do escravo. Uma ótima posição é prender os pulsos aos tornozelos do mesmo lado, com o escravo deitado.

Utilizo geralmente um “flog” pequeno, capaz de fazer rápidos movimentos circulares. Mas também uso chicotes “duros” como os de montaria (com batidas suaves) ou uma “guasca” pequena. Os genitais podem estar livres, mas prefiro amarrá-los antes, separando os testículos. Outro fator que pode ser adicionado para aumentar o castigo é a colocação de presilhas (uso as “frutinhas”) na pele dos genitais.

Além de ser uma punição para erros graves, tem um efeito psicológico muito acentuado na demonstração do poder da Dominadora sobre o escravo. O homem tem uma relação muito forte com seus genitais (até muitos tem apelidos ou nomes para o pênis) e este estar à mercê da Dominadora representa uma forte entrega do poder á Mulher.

Cuidado com batidas fortes e/ou repetidas sobre os testículos e sobre o pênis, especialmente quando ereto. Lembre-se que os tecidos dos genitais são muito delicados e sensíveis, e uma Dominadora não quer estragar o seu “brinquedo”.

Vários leitores estão me questionando sobre o uso de alguns acessórios em spanking. Apesar de estar preparando um artigo, desconheço um melhor trabalho do que aquele feito pela Senhora Helga Vany Freyja que está publicado no site “Desejo Secreto” . Transcrevo aqui a primeira parte das tabelas para orientação daqueles que desejam praticar essa excelente modalidade do BDSM.

Vara de “Rattan” (também existem modelos em acrílico e em fibra de vidro)

Método

Posição do escravo

Técnica

Motivação básica

Advertência

Castigo forte nas nádegas e nas coxas (parte externa)

Corpo arcado para frente, amarrado no banco de punições ou em pé.

Em posição de castigo (tórax encostando no chão ou na cama) e nádegas “empinadas”, com as pernas separadas.

Deitado na maca de massagens ou na cama.

Esse é um castigo forte, muito difundido como método de educação escolar na Inglaterra vitoriana.

A intensidade é variável. Inicio o castigo com múltiplas batidas leves, acompanhadas de um discurso sobre a razão da punição. Essa batidas são entremeadas, ao acaso, por batidas fortes e firmes, cujo número dou a conhecer previamente. Após cada uma dessas batidas fortes, o escravo diz o número correspondente e agradece o castigo.

Punições severas ou em jogos de resistência à dor.

Deixa marcas bem nítidas na pele do escravo. Pode romper a pele, o que leva a necessidade de se ter o cuidado de desinfetar o local atingido, lavando-o com água e sabão, além de usar pomada cicatrizante.

Chicotes de couro trançado (de tamanho variável)

Método

Posição do escravo

Técnica

Motivação básica

Advertência

Chicoteamento nas nádegas.

Corpo arcado para frente e amarrado no banco de punições.

Em posição de castigo (tórax encostando no chão ou na cama) e nádegas “empinadas”, com as pernas separadas.

As batidas são quase sempre fortes, em razão de que os chicotes são pesados, feitos de couro trançado em sua maioria, e a força do movimento dos braços e da mão da Dominadora se amplia até a ponta do chicote.

Punições severas ou demonstração da habilidade da Dominadora no manejo desse tipo de chicote, especialmente os longos (estes utilizados no jogo de apagar a vela colocada entre as nádegas do escravo, como ocorre nas celebrações do OWK).

Deixa marcas bem ntidas na pele do escravo. Pode romper a pele, o que leva à necessidade de se ter o cuidado de desinfetar o local atingido, lavando-o com água e sabão, além de usar pomada cicatrizante.

Para proteçao do resto do corpo do escravo, mando que ele use um colete de couro para proteçao dos flancos e que proteja bem a cabeça.

Em jogos de BDSM, a linha que separa o que é consensual do que é abuso é muito, muito fina. A própria natureza do jogo inclui esse risco e, em essência, ela se baseia num “abuso consensual”, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Em outras palavras, um submisso sente prazer em ser humilhado. E ser humilhado, por qualquer conceito, inclui inevitavelmente o fato de sofrer algum tipo de abuso, seja ele físico, mental ou emocional. Dentro dos limites estabelecidos – ou seja, dentro das regras pré-estipuladas entre dominador e submisso -, esse abuso é o que chamamos de consensual. O submisso sabe que será humilhado – ou abusado – dentro de determinados parâmetros, com os quais ele próprio concorda e sabe que serão respeitados pelo dominador.
Até aqui, tudo muito tranqüilo. Mas, suponhamos que, no decorrer de uma cena excepcionalmente excitante, um ou outro (submisso ou dominador) presuma, por si mesmo, que pode ir um pouquinho além daquilo que foi previamente combinado. Suponhamos, por exemplo, que um casal (homem e mulher) tenha seguido toda a cartilha de segurança, combinando tudo o que fariam, e que em nenhum momento se tenha falado numa penetração anal da mulher. E suponhamos que, no ápice do jogo, o homem tenha, de repente, por qualquer motivo, a impressão nítida de que a parceira concordaria com essa penetração, mesmo estando ela amarrada, amordaçada e vendada, incapaz de reagir.
Aí é que o problema começa. Se o casal combinou uma palavra ou sinal que indica que o submisso já está no limite de sua resistência – e que, portanto, é hora do dominador encerrar a sessão imediatamente -, ainda há uma chance. Mas, se eles deixaram de lado essa “válvula de segurança” absolutamente indispensável numa cena de BDSM, torna-se virtualmente impossível ao submisso indicar ao dominador que este está indo longe demais.
Debater-se, gemer mais alto, tentar gritar ou se livrar das cordas: tudo isso faz parte da cena e nada disso indica coisa alguma, servindo, para a maioria dos dominadores, apenas para excitá-lo ainda mais e tornar mais evidente (para ele) que o submisso está gostando cada vez mais do jogo, quando na realidade ocorre exatamente o contrário.
Nessa situação, com as endorfinas afogando o cérebro, é muito pouco provável que o dominador vá se dar conta de que rompeu os limites do submisso. Ele só se aperceberá disso mais tarde, quando a cena estiver encerrada – e provavelmente a relação com o submisso também, porque se terá perdido a relação de confiança mútua, sem a qual ninguém, em sã consciência, pode manter um jogo de BDSM.
Pode também ocorrer o contrário. Um submisso que goste de ser espancado, por exemplo, pode, da mesma forma, perder o controle sobre si mesmo, permitindo ao dominador que vá longe demais, causando até ferimentos sérios. Neste caso, embora não se possa falar propriamente em abuso, o resultado pode ser deprimente para ambos. Para o submisso, que, ao notar que foi longe demais consigo mesmo, tenderá a culpar o próprio dominador por não ter notado isso, podendo acusá-lo, inclusive, de ter se aproveitado da situação de excitação em que ele, submisso, se encontrava (e daí a acusá-lo de abuso vai apenas um pequeno passo). E para o dominador, que tendo ou não notado que as coisas estavam saindo de controle, irá se recriminar depois, porque ele próprio saiu de controle. Ou seja, ao dar um, dois, três passos além do que se havia preiamente combinado, o dominador estará se mostrando fraco demais para exercer seu papel. Dominadores, acima de tudo, têm de ter controle total sobre a cena. Não apenas sobre o parceiro, mas especialmente sobre si mesmo. Sem isso, ele se torna muito mais uma ameaça do que qualquer outra coisa.
Vê-se, portanto, que a questão é sutil. E, portanto, complexa. Determinar onde termina o consensual e onde começa o abuso é tarefa delicada, que implica em alguma experiência de ambas as partes envolvidas no jogo. Cabe ao submisso saber exatamente até onde ele quer e pode ir; e cabe ao dominador interpretar isso corretamente, além de, claro, saber também ele os próprios limites.
É por conta disso que muitas relações de BDSM tornam-se verdadeiramente traumáticas. Temos visto alguns casos de iniciantes no jogo que, sem ter noções de seus próprios limites, acabam indo longe demais – e depois culpam os dominadores, quando a culpa, na verdade, é de ambos. Um iniciante não tem parâmetros para mensurar coisa nenhuma. E tolo é o dominador que acredita o contrário. Não se trata aqui de duvidar da resistência ou de subestimar os desejos de ninguém. Trata-se simplesmente de um fato: um submisso iniciante simplesmente não sabe se, de fato, poderá chegar até onde sua imaginação e suas fantasias lhe sugerem, porque ele nunca experimentou aquilo antes.
Não são raros os casos de pessoas que acham que adorariam transar amarradas (para ficar num exemplo bem simples) e que, na hora em que tentam fazê-lo, descobrem que a realidade é bem diferente do sonho… E que elas, afinal, não curtem aquilo. O que dizer então de quem acha que vai amar ser humilhado ou chicoteado? Achar, disse certa vez um vilão num filme, é a mãe de todos os erros…
Portanto, agir com cuidado – algo que, como praticantes mais experientes, recomendamos o tempo todo – torna-se ainda absolutamente imprescindível na questão abuso x consenso. E se isso vale para nós mesmos, deve valer muito mais ainda para quem está começando, agora, a explorar suas fantasias dentro do BDSM.
Iniciantes precisam entender três coisas: primeiro, que devem ir devagar, por mais que os instintos lhes gritem que podem ir mais e mais longe.
Segundo, que jamais devem participar de uma cena se não for com um dominador no qual tenham a mais absoluta confiança. E é bom lembrar que essa confiança não se adquire em conversas em chats nem em um único encontro real. A comunidade BDSM é pequena, e as pessoas que a integram geralmente se conhecem. A recomendação é que se procure informações sobre o parceiro ou parceira junto a essa comunidade. Ninguém se sentirá ofendido com isso – e se se sentir, lamentamos dizer, está no lugar errado, porque trata-se de uma relação que envolve riscos (sim e sempre, por mais que se tente negar) e, portanto, torna não apenas natural, mas essencial, que quem queira vivenciá-la cerque-se de todas as precauções que julgar necessárias. Portanto, é preciso colher informações sobre o parceiro, conhecê-lo bem (alguns encontros pessoais, preferencialmente em locais públicos e em programas normais, como ir a um cinema, por exemplo, ajudam a ter uma visão do parceiro ou da parceira não enquanto dominador, mas como pessoa) e só aceitar entrar no jogo quando se estiver totalmente convencido de que o dominador é confiável. Não 50% confiável, nem 70% confiável, mas integralmente confiável. Se houver qualquer dúvida sobre isso, acredite: é melhor desistir e tentar encontrar outra pessoa.
Em terceiro lugar, mas não menos importante: jamais entre numa cena sem antes ter estabelecido a palavra ou sinal de segurança. Se for uma palavra, trate de encontrar uma bem estranha, que não deixe a menor dúvida sobre o seu significado. Jamais use “não” ou “pare”, por exemplo, porque dizer isso faz parte do jogo – e uma das melhores parte, aliás. Use palavras que jamais seriam ditas numa ocasião como uma cena BDSM. Quanto mais absurda melhor. Se for um sinal, deixe muito claro qual será ele. Lembre-se que você pode estar imobilizado(a) completamente, e que será preciso encontrar um meio de indicar que o jogo está encerrado. E lembre-se (e lembre também o dominador): dita a palavra ou dado o sinal, o jogo acaba imediatamente.
Finalmente, uma última observação. Quem estabelece onde termina o consensual são os parceiros, e apenas eles. Mas o abuso geralmente é cometido por apenas um deles. Não existe a desculpa de que o jogo estava tão bom que foi impossível segurar e ir além. Isso pode se aplicar numa transa normal entre casais, mas jamais no universo BDSM. Não é um jogo para crianças jogarem. É coisa para adultos. Mais do que isso, é coisa para adultos que sabem se controlar. Nenhum dominador tem o direito de ir além do que estabeleceu com o submisso. E nenhum submisso tem o direito de deixar que o dominador vá além do que estabeleceu com ele.
Por isso, essa conversa de que “o submisso é meu e eu faço dele o que bem entender, mesmo que ele não queira”, só funciona se o submisso afirmar que “sou do meu dominador e ele faz de mim o que bem entender, mesmo que contra a minha vontade”. Para nós, particularmente, esse tipo de comportamento é questionável, porque entendemos o BDSM como uma relação de prazer para dois, nunca para apenas um. E sabemos que submissos que aceitam absolutamente tudo que o dominador lhes ordena – e que efetivamente sentem prazer com isso – são raríssimos. Alguns talvez aceitem apenas para agradar a seu mestre, ou porque têm medo de que ele vá embora se assim não o fizerem. É um erro, mas um erro particular e que só diz respeito a quem o comete.
BDSM deve, desculpem a insistência, dar prazer aos dois lados, e não a um só. Senão, o jogo perde seu caráter de jogo – e cai no abuso puro e simples. Defender isso seria a mesma coisa que defender o estupro, por exemplo (e mesmo entre nós, cenas de estupro são cenas de estupro…).

(Fonte: http://www.desejosecreto.com.br/teoria/teoria03.htm)

As relações sadomasoquistas são bastante complexas devido à diversidade de fantasias, padrões psicológicos e socioculturais. É muito comum vermos radicalismos pela defesa de posições politicamente corretas sobre o SSC (São Seguro e Consensual), a Safeword (palavra de segurança) e outros comportamentos tão comumente defendidos por quem habita esse universo, sejam comunidades ou grupos fechados. A grande maioria vive um relacionamento fetichista, litúrgico, cheio de rituais e regras adaptadas ao prazer comum.

A Safeword é um mecanismo sugerido para coibir abusos, um sinalizador para cenas BDSMistas que permite uma segurança na entrega de quem se submete. Claro que nisso tudo existem outras questões como confiança e respeito que caminham paralelamente. De nada vale um acordo se no momento de risco em que a palavra for evocada o detentor do comando simplesmente ignorá-la.

A Safeword tem sua nobre função e é indispensável na grande maioria dos relacionamentos, mas eu a questiono em outro tipo de relação, uma relação singular que caminha meio à margem dessa corrente. Não generalizo, falo de relacionamentos que vivi e vivo; apenas creio que como eu, outros compartilham dessa mesma forma de pensar.

Sou contra a palavra de segurança, nunca a usei em minhas relações. Sou sádico e meu relacionamento se dá normalmente com uma masoquista, que é meu contraponto. O motivo para não usá-la é a dinâmica presente no comportamento delas. Existe um pequeno grupo composto por essas raras e preciosas criaturas que tem um limite altíssimo, muito acima da média ou até mesmo da razão, e por conta desse comportamento, não vejo de que forma uma palavra de segurança possa garantir segurança para quem a vê como um troféu, um desafio, uma competição na qual ela é usada como demonstração de força, resistência e conquista de poder. Algo do tipo: morro, mas não vergo. Sou mais forte e vou humilhar quem me castiga. Ou então com uma dessas pérolas; vai bater até cansar…

Existe uma confusão enorme quando se fala em comportamentos masoquistas. É preciso considerar os níveis de resistência de cada indivíduo para se compreender essa diferença, eu cito como exemplo aquelas que têm um perfil perigoso para quem não conhece esse lado psicológico; a atitude manipuladora e competitiva aliada à sua alta capacidade física de suportar uma ação violenta. Masoquistas (refiro-me a um seleto grupo) não são necessariamente submissas, se submetem a um DONO apenas, testam seu poder indefinidamente. Essa disputa passa a ser a mola propulsora gerando comportamentos insolentes e muitas vezes irreverentes, mas sempre de cunho provocativo, instigando reações. É um desafio constante, uma provocação recorrente que via de regra, finda a relação quando a masoquista percebe que obteve o poder através desses jogos de manipulação. Surge a quebra do encantamento e da dependência.

Para meus relacionamentos aboli essa palavra. Eu determino onde começa e acaba uma cena. Não permito que isso vire uma competição de resistência do braço do DONO contra o corpo da escrava. Isso tem que ser prazeroso e intenso no aspecto emocional. Não pode ser vivido como um jogo de ultra violência, uma maratona de espancamento. Numa relação assim a Safeword seguramente trará aborrecimentos.

Somente abolir a palavra não é a solução, é preciso que existam laços afetivos entre os envolvidos para que a percepção seja aguçada. Quem comanda tem obrigação de conhecer o outro, suas reações, suas emoções, saber fazer uma leitura corporal do que se passa com o corpo e a mente do objeto do prazer. É preciso convívio e intimidade para que essa leitura se dê de maneira clara e dentro de um grau de segurança aceitável que substitua a Safeword numa relação tão única.

É necessário ter em mente que somos seres humanos falíveis e também cometemos erros de avaliação. Tudo isso tem que ser considerado e ponderado, o bom senso tem de estar presente em tempo integral com o condutor da cena. A responsabilidade e os riscos são maiores, portanto, o cuidado tem que ser proporcional. Se ontem a escrava agüentou horas de spanking, não significa que hoje será igual. A experiência mostra que as cenas nunca se repetem, sempre lidamos com novos desafios e com imprevistos também. Pessoas têm seus dias bons e ruins.

Não faço uma apologia à ausência da Safeword e tampouco me refiro ao SSC (SÃO SEGURO E CONSENSUAL) ou RACK (Risco assumido consensualmente para práticas não convencionais). Falo de casos específicos como o meu, de exceções que são usadas muitas vezes como exemplos equivocados pelos que não aceitam ou não entendem o motivo desse comportamento. Classificar essa prática como irresponsável sem ter conhecimento de causa é no mínimo uma atitude leviana e infeliz. É preciso que não se confunda essa linha de conduta com aqueles que apenas querem a ausência de limites. São questões bem diferentes e ao invés de uma dicotomia, aqui vejo sempre uma fusão por ignorância de quem critica.

Enquanto se questiona tanto a discriminação que BDSMistas sofrem no universo baunilha, fica um tanto estranho ver essa mesma atitude preconceituosa ditando o que é o certo ou o errado dentro de um relacionamento. Entendo que se deva esclarecer que é perfeitamente aceitável que A ou B não queiram uma relação se a mesma não satisfizer os seus anseios e desejos, isso é um direito sagrado ao prazer. Mas quando esses componentes estão presentes e essa química se dá, essa relação pertence somente a quem dela participa. Dogmas, ritos e liturgias devem apenas nortear um caminho. Segui-lo ou não, é opção dos envolvidos. Somente eles podem ser responsáveis pelos riscos e prazeres encontrados nessa decisão. Infelizmente muitos não entendem que o BDSM não tem regras e sim conceitos. E conceito é algo muito subjetivo.

Meu ponto de vista é baseado na minha experiência e de forma alguma deve ser visto como padrão de comportamento entre um sádico e uma masoquista. Essa receita funciona comigo, é o que entendo como ponto de equilíbrio na tensão existente dentro da minha relação.

Relacionamentos são pessoais, tem suas sutilezas e individualidades, devem ser lapidados de maneira a se obter o maior prazer possível entre os pares. Eu não acredito em soluções prontas, adapto-as às minhas necessidades.

Cada qual sabe o que é melhor para si, meu compromisso é com meu prazer e a integridade de quem está ao meu lado, vejo aqui nessa opção o melhor caminho para a segurança da minha relação.
SENHOR VERDUGO

(Fonte: http://www.senhorverdugo.com/ler_opiniao.asp?ID=242)

“Não é um jogo para crianças jogarem. É uma coisa para adultos. Mais do que isso, é coisa para adultos que sabem se controlar.”
(Edge, Abuso e consenso numa relação D/s)

O ato moral leva à responsabilidade. Atos morais são somente aqueles em que se pode atribuir ao indivíduo uma responsabilidade não apenas pelo que fez mas também pelos resultados ou conseqüências do feito. Só é possível falar em comportamento moral quando o indivíduo que assim se comporta é responsável pelos seus atos, mas isto, por sua vez, envolve o pressuposto de que ele pode fazer o que queria fazer, ou seja, de que pode escolher entre duas ou mais alternativas, e agir de acordo com a decisão tomada.

Por isso, a liberdade da vontade é inseparável do da responsabilidade. E aqui é importante salientar que os sistemas humanos mais evoluídos, para que tenham a flexibilidade necessária para essa evolução, deveriam sempre, para qualquer problema, ter três ou mais de três alternativas de escolha.

Como diz a Lei do Requisito de Variedade Cibernética: “Em qualquer sistema aberto, a parte do sistema que exibir maior flexibilidade sobrevive e tende a dominar o sistema.”

O estudo da cibernética é importante porque é a ciência da comunicação e do controle, seja no animal (seres vivos), seja na máquina. A comunicação é que torna os sistemas integrados e coerentes e o controle é que regula seu comportamento. Segundo estudos cibernéticos, as sociedades e os homens são sistemas abertos, isto é, recebem energia e liberam energia. O que entra, sai. Existe troca, fluxo. Se não existisse, o sistema tenderia a explodir ou sumir, o que aqui vem dar no mesmo.

Então, quando se precisa escolher, fica mais cômodo e adequado ter várias opções de escolha do que apenas duas. Sempre lembrando que na maioria das vezes somos nós mesmos que apresentamos nossas próprias opções. Se conseguirmos pensar em três ou mais opções, ótimo – estamos efetivamente evoluindo e dentro do fluxo de energia do universo. Se não conseguirmos, para qualquer problema que nos surja, nos apresentar mais de duas opções… então estamos com um grande problema, com toda certeza!

Continuando, não basta julgar determinado ato por uma norma ou regra de ação; precisa-se saber das condições concretas nas quais o ato acontece, a fim de verificar se existe a possibilidade de opção e de decisão necessárias para que se possa imputar a responsabilidade moral. E quando nos perguntamos em que condições alguém pode ser louvado ou censurado por sua maneira de agir, buscamos a resposta que Aristóteles já possuía:

1) o comportamento tem que possuir um caráter consciente por parte do indivíduo, isto é, que não ignore as circunstâncias nem as conseqüências da sua ação;

2) a conduta tem que ser livre, isto é, que a causa da conduta seja interior, esteja no próprio indivíduo (que ele não seja obrigado/coagido a fazer).

Só se pode responsabilizar o indivíduo que escolhe, decide e age conscientemente. A ignorância não exime o indivíduo da responsabilidade moral em todos os casos. Existem circunstâncias em que o indivíduo ignora o que poderia ter conhecido ou o que tinha obrigação de conhecer. Então a ignorância não pode eximi-lo da responsabilidade já que o indivíduo é responsável por não saber o que deveria saber.

Assim, decidir e agir numa situação concreta é um problema prático-moral; mas investigar o modo pelo qual a responsabilidade moral se relaciona com a liberdade e com o determinismo ao qual nossos atos estão sujeitos é um problema teórico, cujo estudo é de competência da ética. Logo, o objeto de estudo da ética é constituído por um tipo de atos humanos: os atos conscientes e voluntários dos indivíduos que afetam outros indivíduos, determinados grupos sociais ou a sociedade em seu conjunto.

Assim, sendo a moral flexível e variando de sociedade para sociedade de acordo com a sucessão das mesmas, podemos dizer que o comportamento humano é que varia e se diversifica com o tempo, tanto vertical como horizontalmente, isto é, tanto no seu relacionamento com membros da mesma sociedade, como na sucessão de novas sociedades.

Mas, e porque isso poderia ser importante para a prática BDSM? Simples: porque se antigamente o tempo era muito grande para que mudanças pudessem ocorrer numa sociedade como um todo sem perturbar o desenvolvimento de seus membros; hoje temos uma sociedade onde ocorrem mudanças num intervalo de tempo muito pequeno, fazendo com que diferentes grupos com morais diferentes coexistam sob um mesmo “estado” e sob mesmas “leis” que visam o bem de todos, propiciando os choques entre os membros da grande sociedade e a desestabilização da mesma. Mas esse aspecto das mudanças e como elas ocorrem e assunto para análise posterior.

“ O erotismo e o desejo que partilhamos e expressamos em relação aos nossos parceiros manifestam-se de diferentes maneiras a cada cultura, ganhando expressões singulares através dos tempos.” (Bee_a, Erotismo e Poder)

Mas o que determina o progresso moral? Não se pode considerar o progresso moral sem considerar os fatores sócio-econômicos, culturais e políticos que fazem com que as sociedades progridam e se sucedam umas as outras, no tempo. Não vamos discorrer aqui sobre esses fatores porque não é esse nosso objetivo, mas podemos dizer, basicamente, que o progresso moral se mede de duas formas: primeiro, pela expansão do próprio aspecto moral na vida social. (Entendam sempre o termo “moral” como as regras que regem uma determinada relação social de indivíduos).

Essa expansão se dá quando as relações entre os indivíduos, que eram regidas por normas externas, passam a ser regidas apenas pela moral interna de cada um. Isto é, quando as relações entre os indivíduos passam a se dar dentro do padrão moral intimamente assumido por cada membro da sociedade e tido como certo e coerente para essa sociedade. Por exemplo, não vou praticar determinado ato porque entendo e aceito internamente que esse ato é errado para o grupo e não porque existe um norma externa me obrigando a agir assim.

Segundo, pela elevação do caráter consciente e livre do comportamento dos indivíduos ou dos grupos sociais e, conseqüentemente, pelo aumento da responsabilidade desses indivíduos ou grupos no seu comportamento moral.

Vejam que não estamos citando regras morais específicas, nem estabelecendo comparações e nem dizendo quais são corretas e quais não são corretas. Estamos apenas discorrendo sobre a moral em si, existente em cada grupo, comunidade, sociedade e a forma com que ela molda o comportamento de cada indivíduo em cada sociedade. Que todos temos uma moral, isso é indiscutível. Se ela é a mais adequada ao momento atual, isso sim é discutível, devendo-se sempre considerar que caminhos de evolução a humanidade toma.

Bem, mas surge novamente a pergunta: “- Porque falar em moral num contexto BDSM?” Ora, moral tem tudo a ver com BDSM porque tem tudo a ver com o homem e seus “atos”. Como vamos avaliar nosso parceiro para uma cena? Para um relacionamento? Que valores vamos apreciar que ele tenha? Que tipo de comportamento moral vamos querer que ele tenha conosco? A resposta as vezes é básica: vamos olhar o outro sob o prisma da nossa moral, do que aprendemos a valorizar e a cultivar e esperar que ele se comporte da forma que nós achamos que ele deveria se comportar! Sempre, absolutamente sempre que emitimos um juízo, o fazemos basicamente considerando o que nós entendemos como correto, considerando a nossa moral. Se nos reportássemos para a era da agricultura, onde as mudanças ocorriam de forma tão lenta que dezenas de gerações viviam e morriam com pouca ou nenhuma alteração nos seus hábitos de vida, poderíamos sim avaliar o outro sobre o “nosso” prima moral, porque a moral seria uniforme para todos.

Entretanto hoje, quando as mudanças ocorrem vertiginosamente, não podemos esquecer que o nosso parceiro é um indivíduo inserido numa comunidade que “muta” a cada segundo com a diversidade de processamento das informações e que os princípios morais dele podem (e provavelmente serão) completamente diferentes dos nossos. E se não tivermos essa compreensão, poderemos vir a nos arrepender em algum momento de nossa vida.

“…: se um(a) determinado(a) dominador(a) tem um comportamento em sua vida diária em que é capaz de demonstrar equilíbrio, sentir-se confortável nas diversas situações cotidianas e/ou que tem uma posição de domínio em seu mundo real, isso será altamente tranqüilizador para um(a) submisso(a), aumentará a confiança e a credibilidade nele.”
(…)
“A questão não é se vc pode ou não praticar com um desconhecido. A pergunta é se vc poderá fazer uma escolha sã para vc mesmo(a).”
(Delmonica, BDSM x Comportamento – 2a. parte)

Nessas transcrições de trechos do texto de Delmonica, vemos que existe a preocupação de escolher bem o parceiro e escolher o bem para si. Dessa forma é importante que se saiba o tipo de comportamento prático moral que esperamos do parceiro e, o principal – o tipo de comportamento prático moral que ele realmente terá. Conseguindo identificar isso no outro e sabendo o que é o bom para mim, com certeza saberemos como fazer boas escolhas sem que tenhamos que nos arrepender depois.

“Manter alguém amarrado ou de qualquer maneira aprisionado, constitui-se, no Brasil, como em qualquer outra parte do mundo, em princípio, em crime.”
(BondageRS, BDSM e a lei brasileira.)

Evidentemente, não podemos ignorar a relação da moral com o direito. Se a moral surge, básica e primeiramente, da necessidade do relacionamento entre os indivíduos e surge para regular esse relacionamento e se essas normas (chamadas de moral) são aceitas intimamente por cada indivíduo que compõe a sociedade e por esta, natural foi que, quando a sociedade se sentisse mais organizada, criasse uma forma de fazer valer a “sua moral” para todos seus membros quando muitos desses não assumissem o compromisso íntimo de cumprimento das regras, assegurando dessa forma, a segurança da maioria dos membros da sociedade. Surge então o Estado e o comportamento jurídico ou legal.

O comportamento jurídico ou legal (direito) é o que mais intimamente se relaciona com a moral, porque ambos estão sujeitos a normas que regulamentam as relações humanas. O direito possui aspectos comuns com a moral. Ambos regulamentam, como já foi dito, as relações dos indivíduos através de normas e pregam uma conduta obrigatória e devida. Ambos possuem regras que exigem que se cumpram e ambos possuem a mesma necessidade social, isto é, regulamentar as relações dos homens visando a garantir a coesão social e o bem estar geral.

Entretanto, moral e direito possuem diferenças fundamentais. As normas morais se cumprem pela convicção íntima de cada um dos indivíduos (adesão íntima) e as normas jurídicas não exigem essa convicção íntima e adesão interna. O indivíduo inserido naquele contexto social deve cumprir a norma jurídica, ainda que não esteja convencido de que é justa e, por conseguinte, ainda que não adira intimamente a ela.

A coação é uma outra diferença. No cumprimento das normas morais a coação é interna, isto é, o próprio indivíduo “se cobra” uma atitude. Mas nada e ninguém pode obrigar internamente o indivíduo a cumprir a norma moral. No entanto, a coação para cumprir a norma jurídica é externa, existe o dispositivo externo que pode obrigar-nos a cumpri-la – que é o organismo estatal.

As normas do direito encontram-se codificadas formal e oficialmente (leis), mas as normas morais não. A abrangência da moral é “muito mais” ampla que a do direito. As regras morais atingem todos os tipos de relacionamentos entre os homens e nas suas várias formas de comportamento. O direito regulamenta as relações humanas mais vitais para o Estado, para as classes dominantes ou para a sociedade em seu conjunto.

A moral existe antes do direito porque não exige coação, porque existe antes da organização do estado. O direito, por depender de um dispositivo coercitivo externo de natureza estatal, está ligado ao surgimento do estado. A moral não depende do estado: numa mesma sociedade podem haver várias morais: uma favorável ao Estado e outra contrária. Na sociedade dividida em classes antagônicas existe somente um direito porque tem um só Estado, mas podem coexistir várias morais.

É preciso considerar o caráter histórico da moral. Ela surgiu antes do direito, mas se amplia e expande através do direito, isto é, através do progresso das sociedades e reformulação de suas leis.

Mede-se o índice de progresso social através da ampliação da esfera da moral com a diminuição da esfera do direito, isto é, diz-se que houve progresso social quando os indivíduos de uma dada sociedade agem mais de acordo com as regras morais sem a necessidade da coerção externa do direito. E o ideal é que assim fosse sempre.

Bibliografia:

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CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração. 5.ed. São Paulo, Makron Books do Brasil Editora Ltda, 1997.

EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Trad.: H. P. De Andrade. São Paulo, Editora Nova Fronteira S/A, 1953.

FULLER, R. Buckminster. Synergetics: Explorations in the Geometry of thinking. New York , Collier Books, 1982.

GRAVES, Clare. The Graves Technology. Denton , New York , Viking, 1988. Texas, National Values Center, 1988.

GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência. Trad.: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, Editora Campus, 1990.

LYNCH, Dudley & KORDIS, Paul. L. A Estratégia do Golfinho: a conquista de vitórias num mundo caótico. São Paulo, Editora Cultrix, 1988.

SPRITZER,. Nelson. Pensamento e Mudança: desmitificando a Programação Neurolisguística (PNL). Porto Alegre, L & PM, 1993.

TOFFLER, Alvin. A Terceira Onda. Rio de Janeiro, Record, 1980.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética.

Da internet:

Bee_a, Erotismo e Poder

http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria3.html

BondageRS, BDSM e a lei brasileira http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria10.html

Delmonica, BDSM e suas afinidades com o jogo http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria11.html

Delmonica, BDSM x Comportamento – 2a. parte http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria7.html

Edge, Abuso e consenso numa relação D/s http://www.desejosecreto.com.br/pag4.1.html

O que é vida?

http://acd.ufrj.br/consumo/disciplinas/tl_capra.htm

Visões da ciência na era do complexismo

http://www.geocities.com/Paris/Bistro/5657/argigo2.html

(Publicado originalmente em http://www.desejosecreto.com.br/teoria/teoria26.htm)

“A verdade não se torna mais verdadeira pelo fato de todo mundo acreditar nela, tampouco pelo fato de todo mundo discordar dela.”
(Maimônides – Moreh Nevuchim 2:15)

Pretendemos aqui abordar o tema “moral” e associa-lo com o BDSM – embora saibamos que o termo “associar” não seria o mais adequado, tendo em vista o que moral e BDSM representam. Não vamos partir do princípio de que o conceito de moral e suas variações na sociedade sejam perfeitamente conhecidas e entendidas, embora todos já tenham ouvido falar nisso em algum momento de suas vidas. Também não pretendemos esgotar o assunto porque ele é inesgotável e ricamente diversificável. Entretanto acreditamos que aqui estamos fornecendo alguns subsídios para a flexibilização do tema e para que as pessoas possam conduzir suas relações BDSM (ou não) da melhor forma possível dentro do SSC.

“A comunidade SM, seja nacional ou internacional, vem se expandindo e com isso surge a necessidade de estarmos orientando a todos, principalmente para que os novatos conduzam suas relações BDSM de uma forma segura e consensual, a fim de que a sua forma de expressão do prazer sexual seja preservada de forma saudável.”
(Delmônica, BDSM e suas afinidades com o jogo)

Situada dentro do aspecto sócio-cultural das sociedades, mais especificamente no campo da antropologia social, as práticas BDSM são uma das formas através das quais o indivíduo expressa sua sexualidade. A sexualidade aparece no ser humano desde muito cedo e suas primeiras manifestações não tem caráter genital, mas trata-se mais da organização do impulso libidinal que, mais tarde, será fundamental na busca do prazer sexual. Justamente por isso, o termo “sexualidade” é bastante amplo, não resumindo apenas a atividade sexual.
Desde que vive em sociedade o homem invariavelmente esbarra em problemas de relacionamentos (afetivos ou não), ligados ou não a sua sexualidade. E esses problemas sempre trazem a questão do conhecimento sobre outra pessoa. Sobre esperarmos que alguém seja assim e comprovarmos, mais tarde, que ela é “assado”. Não raro é nos encontrarmos perplexos diante das atitudes de algumas pessoas, amigos, colegas, conhecidos, entes mais próximos e nos perguntarmos, internamente, o que poderia ter levado aquela pessoa a fazer o que fez. Não que o que ela tenha feito seja certo ou errado, mas sim porque o que ela fez não era o que “nós” esperávamos que fizesse ou simplesmente porque o que fez nos causou espanto. A moral pode ser um dos principais aspectos que se possa observar em alguém para que possamos qualificar aquele alguém como um possível parceiro ou parceira para o nosso convívio, nossa amizade, nossa prática BDSM.

“As pessoas não vêm com nenhuma espécie de ‘painel’ onde apresentam um ‘detector’ de caráter, um ‘medidor’ de intenções, um ‘localizador’ de objetivos ou, ainda, um ‘indicador’ de equilíbrio mental.”
(Delmônica, BDSM x Comportamento – 2a parte)

E é por essas palavras transcritas acima, de Delmônica, que temos que ser perspicazes e abertos para nos conhecermos e buscarmos de forma prazerosa a nossa satisfação através do BDSM e devemos ter muito cuidado e atenção ao escolhermos os nossos parceiros nesse jogo. Embora isso não seja uma tarefa simples, não é, contudo, impossível de se fazer de forma um pouco mais segura.
Entretanto, cabe aqui ressaltar, antes de entrarmos no assunto propriamente dito, que não pretendemos “ensinar” nada a ninguém, nem “criar uma moral” e muito menos fazer apologia sobre o que é certo ou errado. Cada um, dentro do seu contexto, é que melhor sabe, sempre, o que é ou não adequado para si.
Reiteramos que os conceitos e definições aqui expostos são, antes de tudo, um estudo fundamentado sobre o tema proposto, estando citados no final do artigo toda bibliografia utilizada. Entendemos que o leitor, leigo ou não, poderá e deverá buscar sempre maiores informações, outras fontes sobre o assunto e inclusive contribuir com idéias e sugestões – desde que não sejam meros “achismos” sem sentido e que não se desvinculem da realidade que ora vivemos.
Há bilhões de anos atrás o homem primitivo relaciona-se com outros de sua espécie e interage com a natureza buscando submetê-la. A própria fraqueza de suas forças diante do mundo que o rodeia determina que, para enfrentá-lo e tentar domina-lo, reúnam todos seus esforços com o objetivo de multiplicar o seu poder. A fragilidade de seus filhotes, que exigem um período de cuidados mais prolongado do que outras espécies, leva o homem primitivo a permanecer mais tempo junto a fêmea e assim, garantir a perpetuação da espécie. Dessa forma, agrupam-se em tribos, clãs, num arranjo semelhante ao que entendemos hoje por família, onde passam a conviver.
Notamos aqui que a “família” não surge de uma imposição externa ao homem, mas de uma necessidade natural por ele internalizada de manter-se, de viver mais, de impor-se sobre o mundo hostil daquela época e assim perpetuar a espécie. E dessa “vida social” em tribos e clãs e da observação das atividades de seus integrantes, surge a compreensão comum de todos os membros da tribo do que são valores bons e maus para a harmonia da clã/tribo. Valores como coragem/covardia, força/fraqueza, bondade/maldade, altruísmo/egoísmo… O trabalho do homem primitivo assume, na tribo, um caráter coletivo e o fortalecimento da coletividade se transforma numa necessidade vital. Somente o caráter coletivo do trabalho e, em geral, da vida social, garante a subsistência e a afirmação da tribo. Assim, cada membro da tribo recebe atividades para desempenhar para que a mesma possa se desenvolver em harmonia. A mãe a cuidar dos filhos, da comida, os mais velhos a ensinar os mais novos, os bravos a cuidarem da segurança e caça, etc.
Então uma série de normas, mandamentos ou prescrições não escritas surgem a partir dos atos ou qualidades dos membros da tribo que beneficiam a comunidade. Essas normas são aceitas por todos e por todos cumpridas para o bem da comunidade. Nascia então, lá naquele tempo distante e primitivo, o que chamamos hoje de MORAL, do latin “mos” (costume) ou “mores” (costumes), com a finalidade de assegurar a concordância do comportamento de cada um com os interesses coletivos dos membros da tribo (sociedade). Um conceito mais elaborado e completo do termo moral podemos dar agora como sendo:

“… um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal.”
(VÁZQUEZ, 1987)

Dentro deste conceito podemos ver que a moral compreende um aspecto normativo (regras de ação) e um aspecto factual (atos que se conformam num sentido ou no outro com as normas mencionadas). E que mesmo a moral possuindo um caráter social, o indivíduo tem um papel essencial, visto que exige primeiro a interiorização dessas normas em cada homem individual, sua adesão íntima ou reconhecimento interior dessas normas estabelecidas e sancionadas pela comunidade. Natural isso porque para que existe uma comunidade é preciso que cada ser individual a componha. Podemos dizer, observando o desenvolvimento da humanidade, que a moral aparece primeiro em seu aspecto factual e posteriormente, com o surgimento do Estado, aparece em seu aspecto normativo.
Exemplificando o aspecto factual da moral, podemos dizer que “não mentir” é uma postura internalizada pela grande maioria das pessoas e por elas aceita naturalmente, não havendo uma regra escrita para todos onde diga que “Não se deve mentir.” Vamos excluir aqui os dogmas religiosos porque eles fariam referência a um grupo específico de pessoas (as que professam aquela religião) não abrangendo os demais. Ninguém é preso, na sociedade atual, por ter dito uma mentira sem grandes conseqüências. No entanto o mentiroso inveterado, identificado por um grupo, sofre as restrições morais factuais daquele grupo: exclusão do mesmo, descrédito, desconfiança, etc. Já a afirmativa “não matar” é um aspecto normativo da moral de nossa atual sociedade, escrito na Constituição e imposto aos membros da sociedade pelo poder coercitivo do Estado. Mas sabemos, pela história, que em outros tempos, em algumas sociedades, a disponibilidade sobre a vida de outras pessoas era bastante natural para os que detinham o poder. Matar, nessas sociedades, era aceitável, desde que da vontade do Senhor.
Quando o indivíduo age de acordo com “uma moral”, ele pratica um ato moral. O ato moral é o resultado concreto do comportamento moral dos indivíduos e os aspectos/elementos que o integram são: motivos, intenção, decisão, meios e resultados. A moral, assim como as sociedades, se sucedem e substituem umas as outras, através dos tempos, e por isso possuem um caráter histórico, não podendo ser concebida como dada de uma vez para sempre e sim considerada como um aspecto da realidade humana mutável com o tempo. Por isso, observando o desenvolvimento das sociedades historicamente, podemos ver sociedades com costumes diferentes que foram “progredindo” através dos tempos e, inclusive, costumes que foram abolidos. Um claro exemplo disso era a sociedade escravagista, que não considerava os escravos (negros) como pessoas que pudessem ter uma alma e serem considerados como humanos. Naquela época este pensamento era perfeitamente aceitável. Hoje, estudando tal sociedade, achamos que aquela prática era errada e que o pensamento estava errado. Mas precisamos também considerar que nós, hoje, somos o fruto evoluído daquela sociedade. E precisamos também observar que em muitas pessoas ainda existe o forte sentimento daquela sociedade, traduzida pelo preconceito, transmitido por seus ascendentes e internalizado por elas. É óbvio que hoje entendemos perfeitamente que os escravos (negros) são seres humanos com alma e com os mesmos direitos que nós. Talvez hoje, nós mesmos tenhamos certos conceitos tão arraigados em nós e tenhamos tanta certeza que estejam certos e daqui a dez, quinze anos tais conceitos sejam considerados “errados” pela sociedade evoluída daquela época. Tais análises de sociedades, tomando épocas diferentes, é bastante interessante e digna de ser abordada em texto posterior, considerando os vários aspectos das mudanças das sociedades.
A moral não exige só que o homem esteja em relação com os demais, mas também exige certa consciência – por limitada e imprecisa que seja – desta relação, para que se possa comportar de acordo com as normas ou prescrições que o governam.
Uma distinção é importante que se faça aqui entre moral e ética, para que no decorrer do texto se entenda melhor quando nos referimos a um e a outro. Todos os problemas práticos reais, surgidos das relações propriamente ditas entre os indivíduos são problemas morais que o indivíduo busca resolver utilizando as normas comportamentais que lhe foram ensinadas no meio em que vive (família, sociedade). E estas normas são aceitas internamente por ele e reconhecidas como obrigatórias e de acordo com elas o indivíduo entende que tem o dever de agir desta ou daquela maneira.
Então, quando numa prática BDSM o/a Dominador/a escolhe parar com a cena combinada com a/o submissa/o mesmo que a/o submissa/o não peça ou queira a interrupção, o/a Dominador/a está agindo de acordo com normas que por ele/a foram aceitas e internalizadas – porque ele/ela pressente que se continuar com a prática indiscriminadamente poderá advir algum problema que atente contra a integridade física e/ou moral de sua/seu submissa/o e isso lhe parece errado. Outras pessoas refletindo sobre essa atitude do/a Dominador/a poderiam julgar e formular juízos, aprovando ou não a atitude tomada (“- O Dominador X agiu corretamente ao parar naquele momento.”)
Então vemos que temos de um lado atos e formas de comportamento dos homens diante de determinados problemas (problemas morais) e de outro lado, juízos que aprovam ou desaprovam esses mesmos atos. Conseqüentemente, esses atos e formas de comportamento humano e os juízos feitos sobre eles pressupõem a existência de uma norma – a de que deve-se respeitar a vida acima de tudo (o “não matar”). E pressupõem também que eu vivo em sociedade porque eu quero e assim sendo me preocupo com o que possam pensar de mim aqueles que comigo convivem. Inevitavelmente seremos seres sociais para o resto de nossas vidas porque quer queiramos ou não, vivemos em busca de aprovação daqueles que nos cercam. Só podemos fazer o que quisermos se esse nosso querer não agredir a outrém.
Na vida real, constantemente, defrontamo-nos com problemas práticos e para resolvê-los recorremos às normas, cumprimos determinados atos, formulamos juízos e nos utilizamos de argumentos ou razões para justificar a decisão tomada ou os passos dados. Assim, esse comportamento efetivo, tanto dos indivíduos quanto dos grupos sociais, de ontem ou de hoje, é chamado de comportamento humano prático-moral, mesmo sujeito a variação de uma época para a outra e de uma sociedade para outra e vem desde as próprias origens do homem social, lá na sua clã/tribo.
Se por um lado esse comportamento prático-moral acompanha o homem desde as suas origens, já a reflexão sobre esse comportamento surge muitos milênios depois. Assim, o homem age moralmente e também reflete sobre esse comportamento, passando da moral prática para a teoria da moral. Isto é, ele reflete e questiona um ato que pode ter sido feito no presente ou no passado, emitindo juízos sobre ele. Essa reflexão sobre o comportamento prático moral do homem se verifica com o início do pensamento filosófico e caracteriza o surgimento dos problemas teóricos morais ou éticos. Então, quando precisamos agir num determinado momento usando apenas nossa própria concepção e critérios de moral, enfrentamos um problema prático-moral. E quando refletimos sobre as atitudes que tivemos, estamos diante de um problema teórico moral ou ético. Então a ética é a ciência que estuda a moral e que nos diz o que é um comportamento ditado por normas ou em que consiste o fim – bom – visado pelo comportamento moral.
Como diz Vázquez:

“O problema do que fazer em cada situação concreta é um problema prático-moral e não teórico-ético. Ao contrário, definir o que é bom não é um problema moral cuja solução caiba ao indivíduo em cada caso particular, mas um problema geral de caráter teórico, de competência do investigador da moral, ou seja, do ético.”
(VÁZQUEZ)

Evidentemente pressupõem-se que sabendo o que é o bom para o indivíduo e a sociedade, se pode traçar um caminho geral através do qual os homens possam orientar a sua conduta e resolver de forma adequada para todos os seus problemas prático-morais.
Mas aqui enfrentamos uma outra dificuldade: o tempo das mudanças. Precisamos considerar os avanços em todas as áreas do conhecimento para podermos avaliar com o máximo de precisão possível o que seria o “bom” atualmente para a sociedade. Mas é certo que esse “bom” de hoje é bem distinto do “bom” daquela sociedade da antiguidade, da era da agricultura, por exemplo. E porque? Bem, naquela época da era da agricultura (por exemplo), as mudanças não aconteciam com muita freqüência e rapidez. Segundo Alvin Toffler, o predomínio da agricultura durou cerca de seis mil anos e nesse espaço de tempo dezenas de gerações viveram e morreram com pouca ou nenhuma mudança em seus hábitos de trabalho e vínculos sociais. As mudanças eram lentas, os seres humanos dispunham de quase uma “eternidade” para mudar. Naquela sociedade seria facílimo determinar o que seria o “bom” para o indivíduo e mais fácil ainda resolver problemas prático-morais e refletir sobre as decisões tomadas! Hoje, após o avanço inexorável das ciências e a rapidez com que as mudanças ocorrem, tendo um intervalo de tempo curto demais entre elas, às vezes de apenas dez, quinze anos (com a tendência a diminuir esse espaço), a conseqüência é uma “mistura” de gerações com concepções diferentes do que seria o “bom” para o todo e com conceitos novos que ainda não foram totalmente assimilados por todos. E nessa mistura de “gerações” (que implica numa “mistura” de morais) os parâmetros para a reflexão sobre os atos morais se tornam numerosos demais para que se consiga traçar rumos claros e que agradem a todos.

continua…
(Fonte: http://www.desejosecreto.com.br/teoria/teoria25.htm)

Sabemos que a sexualidade humana é humana na medida em que nos afasta da função da reprodução. Iidentificamos o prazer sexual com este afastamento – quanto menos animal, mais prazer.

Um desses afastamentos nos interessa particularmente: a capacidade de erotizar o planeta.

Só nós humanos podemos fazer isto, e apenas dois estilos de erotismo o fazem de maneira sistemática e consciente: o Romantismo e o Sadomasoquismo.
Senão, vejamos.

Quando o romântico recolhe no alto do morro uma flor para sua amada, empresta àquela flor o poder de falar por seu amor. Quando a amada leva a flor consigo, a deposita dentro de um livro de cabeceira, olha lânguida para ela antes de dormir, imantou a flor com o seu amor, com o seu amado; ou ainda, recebeu e aceitou a simbologia que o amado inventou. O casal foi capaz de extravasar seu amor, seus desejos, seu erotismo para o resto do planeta, para os objetos – qualquer objeto: roupas, presentes de todos os tipos, o guardanapo do restaurante onde ele/a me disse “sim”. Tudo está à disposição e é utilizado para representar, expandir, re-significar o amor e o desejo do casal.

Ao contrario do romantismo, no sadomasoquismo o uso de objetos variados é portador de um certo preconceito, principalmente pela falta de conhecimento de sua função (e diga-se de passagem que por vezes o preconceito assalta inclusive os praticantes do bdsm).

Mas o que ocorre aqui é exatamente a mesma coisa que ocorre com o romantismo. Ao penetrar sua parceira com um objeto comprado em um sex-shop (eu particularmente prefiro adquirir estes brinquedinhos no supermercado da esquina), ao comprar e utilizar um chicotinho, ao utilizar lenços ou cordas ou fios para amarrar o parceiro.
Vis a vis à pratica de ser amarrada/o, de apanhar com chicote ou palmatória, de ser penetrada por um socador de caipirinha. Ambos, senhor/a e escrava/o estão erotizando o planeta à sua volta, seus afetos, seus desejos. Seu tesão agora se espalha pelos objetos da cena, da casa, do planeta. Uma/um boa/m escrava/o se excita ao entrar no supermercado onde buscou brinquedinhos com seu/sua dono/a. Um/a bom/a senhor/a idem. Os amantes trocam olhares lascivos ao enxergar um destes objetos quando estão andando pela rua.

Se isto não é visto assim, é graças à duas confusões teóricas encontradiças nas ciências humanas – na psicologia e na economia.

Na psicologia, desenvolveu-se a noção de fetiche, advinda da psicanálise. Ocorre que este conceito significa a substituição do objeto erótico pelo objeto, digamos, inanimado. Se eu gosto de calcinhas de mulher ao invés da mulher mesma, então estou fetichizando (a palavra vem de feitiço, ou seja imantar as coisas das propriedades que elas não tem). Vai daí que se confundiu a propriedade humana de humanizar o mundo, com a patologia de substituir o mundo humano pelo mundo das coisas.

E na economia, especificamente na economia política, Marx importou a mesma noção para denunciar a alienação da mercadoria, onde os homens passam a idolatrar os bens, outra vez, no lugar das pessoas.

Com isto, infelizmente, perdemos a possibilidade de admirar este feito maravilhoso da consciência humana – a capacidade de abranger o mundo com nossos sentimentos, de emprestar às coisas o nosso modo de ver e de sentir. Por isto o romântico é ridicularizado e o sado-masoquista execrado quando usa objetos para demonstrar, simbolizar, mimetizar o seu amor, o seu desejo, o seu tesão. Mas se a consciência execra a pratica, o corpo a sacramenta, as glândulas reagem, e os mamilos apontam da mesma forma quando uma mulher romântica enxerga uma flor ressecada ou quando uma escrava acaricia um chicote.

Eis uma das boas razões pelas quais romantismo e sadomasoquismo são modos tão intensos de amar, tão apaixonantes, tão radicais: Ambos tem a propriedade de vestir o planeta com o seu amor, de colocar o mundo a serviço de seus sentimentos, de exercer com plenitude o que os humanos temos de mais humano.

(Publicado anteriormente no site “Desejo Secreto”)

Sádico

Quando a beea me pediu que escrevesse sobre esse assunto, sabia que iria enveredar por um terreno pantanoso, uma vez que iria lidar com dois paradigmas muito poderosos na vivência de cada um de nós: o amor e o BDSM.

De um modo geral, pela minha experiência pessoal e pelo que vejo da dos outros, o BDSM surgiu na vida de cada um de nós como resultado de um processo mais ou menos intenso, mas sempre libertário. Escravas ou Mestres, submissos ou Dominadoras, para a maioria de nós o BDSM representa a possibilidade insuspeitada de viver uma fantasia que não sabíamos até então poderia ser experimentada como algo inteiramente são, seguro e consensual. A descoberta disso, via de regra, transborda de entusiasmo. É como se enfim nos livrássemos dos preconceitos, menos os alheios e mais os nossos próprios. Mas sempre que a humanidade (e cada pessoa em particular) se livra de algo que lhe oprime, a tendência inicial é rejeitar completamente o que antes lhe sufocava. E o que nos impedia de alcançar a liberdade da vivência BDSM?

Bem, essa questão é bem pessoal, mas creio que no âmago de cada resposta em maior ou menor grau está um pouco do ideal do amor romântico, aquele amor sublime, que não traz o paradoxo do ódio dentro de si, que é apenas enlevo e alegria, que é celebrado nos matrimônios, nas letras de música, nos poemas de todos os tempos, nos romances, no cinema, no palpitar dos corações adolescentes (e dos nem tanto). Dentro do ideal do amor romântico é impossível pensar que alguém que me ame possa comprazer-se em êxtase como meu sofrimento. E como eu posso amar alguém que me tortura? Desse modo, muitas vezes foi preciso questionar (e negar) muito esse ideal de amor para se chegar à possibilidade da experiência BDSM. E aí, muitos de nós vangloriam-se por dissociar o amor (qualquer amor) do BDSM, inclusive tratando com um certo desprezo, mais ou menos sutil, aqueles que se dizem amorosamente envolvidos com os seus parceiros nos jogos BDSM, pressupondo que quando tais sentimentos não estão presentes nas relações, o jogo é mais maduro, mais puro, mais “essencialmente” BDSM.

No entanto, nesse ponto, acho que me cabe comentar, há amores e amores. Formas inúmeras de amar, talvez tantas quanto sejam as pessoas no mundo. Dizendo isso não pretendo me eximir do cerne da questão, relativizando tudo e portanto não afirmando nada. Afirmo, sim, que no meu entender o amor é condição essencial para viver o BDSM. Mas não me refiro aqui ao ideal do amor romântico, até porque nesse eu não acredito. Também com isso não pretendo retroceder no que a maioria de nós, mulheres, conquistamos nas últimas décadas, ou seja, a capacidade de dissociar sexo de amor. Embora algumas espécimes remanescentes ainda não tenham tido o prazer dessa descoberta, a maioria de nós já sabe que é possível (e muito prazeroso) o sexo pelo sexo, sem necessidade de maiores sentimentos envolvidos. Inclusive o sexo BDSM.

Não é disso que trato aqui. Para dizer do que trato aqui, tentarei falar sobre o que significa o BDSM, do meu ponto de vista:

1. Antes de tudo, entrega irrestrita. Não consigo imaginar um relacionamento BDSM onde há espaço para algum canto escuro, secreto, intocável, sagrado. Não há nada que possa ser pensado, imaginado, vivido, fantasiado, mas que não possa ser dito ao outro.
2. Desse modo, o BDSM também significa confiança absoluta, porque não se partilha nossas sombras com alguém em quem não se possa depositar total confiança.
3. É preciso cumplicidade, sintonia, afinidade para submeter-se a uma outra pessoa, para seguir na trilha que ela indicar, para colocar o prazer do outro acima do nosso (sabedores que já somos de que ali estará, ao final, também o nosso prazer).
4. É preciso muitas vezes uma determinação férrea para suportar a dor (especialmente aquela que realmente não buscamos – pois sabemos que para nós é muito fácil rir com prazer da maioria das dores que nos infligem), e uma imensa força de vontade para retirar dessa dor verdadeira (dessa “dor pura” digamos assim) um prazer real, já que é essa a nossa glória e o nosso suplício.
5. Por fim, é preciso um respeito profundo, muito tesão e um interesse constante pelo outro para que palavras seguras sejam ditas e sejam recebidas, sem que a natural e mútua frustração se transforme em mágoa, ressentimento, cansaço ou desânimo.

Para mim, entrega irrestrita, confiança, cumplicidade, sintonia, afinidade, determinação, força de vontade, respeito profundo, muito tesão e interesse constante nada mais são que outro modo de falar, em conjunto, de AMOR. E talvez se há alguma divergência entre nós, essa seja apenas de terminologia. Percebo, que acabei construindo um outro ideal de amor, menos ingênuo talvez, menos maniqueísta, já capaz de incluir em sua estrutura sentimentos menos “nobres” como o ódio, a raiva, a força do poder, mas nem por isso menos ideal. No entanto isso só reforça o pensamento de que é de amor que estamos tratando aqui, pois qual a matéria de que é feito o Amor senão o Ideal?

Na prática, nada é assim tão simples, e a determinação férrea muitas vezes se confunde com resistências férreas, a entrega irrestrita às vezes se confunde com o medo da perda, a sintonia se abraça com a acomodação, a força de vontade vira teimosia, e é preciso doses extras de paciência e tolerância para não perder o rumo. Mas amor é assim mesmo, cantado na prosa e no verso sempre soa diferente do que se vive dentro da pele – mas aí já é tema para um outro colóquio…

(Fonte: http://www.desejosecreto.com.br/teoria/teoria33.htm)

Túlio Bambino é aquele sujeito que você pode chamar de “boa praça”, de trato fácil e um cineasta que, mais do que fazer filmes, ama o que faz. Foi ele quem “cometeu” o documentário “Algologania” um mergulho no mundo BDSM que foca, com grande mérito, as pessoas, suas concepções, enfim, o porquê de estar no universo do BDSM.

Carioca, físico de formação, graduado pela Universdade Estácio de Sá em cinema, percussionista, além de Algologania, agora lança Bar A.K.A.  que aborda um dia em um bar fetichista.  Na entrevista à seguir, concedida por e-mail, Túlio nos fala sobre seus planos, conceitos e sobre como foi fazer esse documentário sobre o BDSM.

P.: Túlio, me parece que Algolagnia é o primeiro documentário brasileiro que aborda o BDSM. Estou enganado? Tem conhecimento de algum outro.

Até onde eu sei, tem coisas de TV, tipo Otávio Mesquita e congêneres. Os programas de TV a cabo também produziram coisas ligadas mais a fetiche, a sacanagem da coisa em si, sempre reduzindo muito o horizonte do jogo de sedução ligado ao BDSM. Enfim, no Brasil eu desconheço trabalhos documentais voltados ao BDSM.

P.: De onde surgiu a idéia para fazê-lo? Você tinha algum contato anterior com o BDSM?

Outro dia mesmo eu estava conversando sobre memórias e meio que apareceu esta conversa, o mais longe que cheguei foi em “Pulp Fiction” o Marcellus Wallace é sodomizado pelo Gizmo, lembro que esta cena durante bom tempo foi dada como surreal, um cara vestido de couro dos pés a cabeça, dentro de um caixote nos porões de uma loja de penhores: loucura total do Tarantino! Levei anos pra entender aquilo. É bizarro, mas não é surreal.

A idéia do filme veio agregada a pesquisa de um roteiro de ficção. Eu queria escrever um roteiro sobre um casal que estaria tentando salvar a relação através de jogos eróticos, meu conhecimento sobre SM, nem o BD eu conhecia nesta época, se reduzia a chicotes e correntes, com isso o roteiro tava fadado ao lixo, lá pelo sexto tratamento resolvi pesquisar e caí na rede. Conheci a Senhora Maga e o que seria uma pesquisa se transformou em documentário. Ah sim, o roteiro de ficção continua parado.

P.: Uma das características mais marcantes , ao meu ver, do Algolagnia é apresentar os praticantes do BDSM como pessoas comuns e que têm clareza da legitimidade da sua prática. Essa característica já estava pensada enquanto você estava escrevendo o roteiro ou foi conseqüência da vivência com essas pessoas?

Bem, uma coisa que eu me preocupo bastante na realização de um filme, seja ele qual for, é o chamado Dispositivo, que vai além da noção de roteiro, muito além. Pois embute tanto a parte de realização do filme em si, quanto a parte de logística do filme. Quanto menos recursos se tem, mais isso deve preocupar quem realiza filmes independentes. Um exemplo que talvez deixe claro é o filme do Eduardo Coutinho: “Edifício Master” que trata sobre moradores deste prédio, com depoimentos tomados em um determinado tempo e depois editados na seqüência cronológica real dos eventos. Não vale colocar trilha sonora, nem nada que não tenha sido captado pela equipe. Enfim, por aí vai. Em ficção também posso lembrar do movimento “Danish” Dogma 95, assinado pelo Thomas Vintenberg e o Lars Von Trier, em que os filmes “Os Idiotas” e “Festen” são bons exemplos do que eu quero dizer, os caras criam regras antes e as seguem para realizar o filme. Coisas simples a priori que depois se mostram complicadas de não serem quebradas.

Voltando ao meu filme, a idéia era simples, investigar as representações de amor e inferno junto a este grupo bizarro, e por bizarro entenda algo mais amplo, algo além dos padrões de certo e errado da representação dominante da nossa moral ocidental. Com isso eu contei com 5 questões básicas que poderiam ser desdobradas de acordo com a fluência da entrevista e a idéia de entrevistar todas as pessoas num mesmo lugar, o “dungeon” da Senhora Maga. Simples e eficiente. Combinei com as pessoas que me interessava pelas personas e não em suas identidades e isso definiu enquadramentos em big closes e desfoques, pois todos estão incógnitos no filme por razões distintas. Comecei as filmagens por volta de maio de 2006 e esperava ter as imagens todas em junho, editar em julho e lançar em agosto. Todavia, “shit happens” e a gente se adaptou, alguns depoimentos foram tomados na minha casa, não consegui captar todas as sessões que eu havia previsto e só consegui terminar o filme em novembro daquele ano.

P.: O fato de não enfocar prioritariamente as sessões (apesar de haver algumas na cópia que assisti), chegou a decepcionar algum praticante ou curioso?

Uma coisa tão certa quanto a morte é a incapacidade de agradar as pessoas que se sentam pra assistir um filme, todo mundo vai reclamar de algum aspecto da produção. Portanto o lance é colocar o coração e, no caso de um documentário, me preocupar com o registro honesto da história e dos personagens envolvidos, me preocupo sempre em dialogar com as pessoas envolvidas, apesar de no final saber que a assinatura e responsabilidade do filme são minhas.

Tem gente que gostaria de ver atores Globais sendo sodomizados pelo time de Volei Feminino de Praia da Suécia, a estes indico os filmes da “Ruberella” ou o site da Insex, documentário sempre vai estar logado aos ovos que estão na minha cesta, além deles eu não posso ir.

P.: Nós sabemos que para fazer um filme, seja de ficção ou documentário, é necessário uma equipe técnica. Qual foi a reação dessas pessoas ao gravar as sessões que compõe o filme? Houve dificuldades? Como foram superadas?

O lance é saber que uma vez na chuva o certo é sair molhado. Pode até pintar uma coceira aqui e ali, mas se você está concentrado e disponível ao universo que está investigando, não cabe melindres. Eu gosto de equipe mínima e as pessoas que escolhi para me ajudarem, não poderiam ser melhores. Durante o tempo de realização do filme, acho que eles sofreram muito mais fora do set com minha conversa do que nas filmagens, eu fiquei muito chato divagando com minhas teorias de representação do corpo, teorias “Queer”, Barthes e Foucault. Além é claro de Dante, meu companheiro de idas e vindas ao Inferno.

P.: Eu gostaria de que você comentasse algo que, visto de fora, pode se constituir uma dificuldade que é a questão de pensar a preservação da identidade e mais, da intimidade das pessoas envolvidas. Apesar desse cuidado ser notório, como foi o processo de “negociação” para que essas entrevistas fossem concedidas?

Eu devo agradecer muito desta negociação a Senhora Maga, ela me deu um “cheque em branco” e eu o usei para negociar com as pessoas envolvidas no filme. Sem ela o filme não existiria. Uma vez indicado por ela, uma conversa prévia trouxe as pessoas para o filme. A maioria já chegou disponível, as poucas desconfianças que pintaram foram elucidadas, principalmente com o material bruto que teve o cuidado de manter as identidades resguardadas plenamente.

P.: Apesar das novas tecnologias baratearem o custo de produção, fazer um documentário nunca é tão barato. Como é que você conseguiu financiamento para um filme com essa temática? Houve apoiadores ou tudo saiu do seu bolso?

Tudo saiu do meu bolso. Alguns lanches a Senhora Maga bancou, ela cozinha muito bem.

P.: Como a experiência de filmar Algolagnia te afetou pessoalmente? Houve alguma visão que você tinha anteriormente que foi superada ou que foi afirmada? Qual é o conceito do BDSM que surgiu à partir dele? Poderia compartilhar conosco?

Eu costumo ter um mote: “Nada que é humano me surpreende”. Tento manter isso em mente quando entro nessas aventuras de pensar e de filmar. Com certeza esse mote é posto em cheque todos os dias nas leituras de jornal, muito mais do que na realização de um documentário sobre sexualidade. Alguns preconceitos caíram, o mais divertido deles era a idéia de que seríamos abduzidos em uma sessão por “Dommes” satânicas e escravos malditos. Assim como dizemos que de perto todo mundo é maluco, de longe todos são normais. Uma outra brincadeira da equipe era o fato de não sabermos quem seriam os entrevistados do dia, perigava então encontrar um parente ou conhecido no set. Ia ser engraçado descobri um Professor ou uma Tia numa sessão destas.

Com relação a conceituação, essas coisas são dinâmicas e se movem na minha cabeça, uma delas é de que o sexo BDSM é Aristotélico, ele não dá lugar a fantasias, pois estas são sempre colocadas em prática. Mas e aquilo que sobra no mundo das idéias? O irrealizável, mas mesmo assim desejável o que é? O desejo de morte é uma coisa que aterroriza e fascina e acho que isso pode ser uma coisa bastante interessante no que diz respeito a realização de textos e filmes.

P.: Por razões óbvias seu documentário tem uma “cara” bastante carioca, em uma cidade que tem uma concepção própria e até certo ponto diferente da do pessoal SM de São Paulo por exemplo. Como seu documentário foi recebido nos grupos SM fora do Rio?

Acho que por não ser do meio BDSM, o filme passou uma cara honesta e não bairrista. Acho que abordamos questões gerais que são comuns ao humano e não ao lugar. Eu gostaria muito de fazer algo ligado ao Brasil, mas aí eu teria de ser financiado, não tenho condições de bancar algo assim sozinho.

P.: O “Algolagnia” foi premiado. Gostaria que você falasse um pouco da “carreira” do filme.

O Algolagnia teve uma carreira muito legal, mas ele teve uns problemas que eu poderia ter evitado. Um deles é o tempo de duração, quase 30 minutos, um média metragem não tem muito espaço. Além disso eu errei em lançá-lo com data de 2006, apesar de te-lo finalizado em novembro deste ano, o certo seria dar a data de 2007. Ele esteve em festivais de cinema e vídeo pelo Brasil, Santos, RS, SP, Brasília, Vitória, Fortaleza, MA e RJ. Além disso teve exibições em Portugal e NY. Entrou em Festivais importantes na Mostra competitiva: Vitória, MixBrasil, Santa Maria, Mostra do Filme Livre entre outros. Ganhei premio de melhor direção no festival da diversidade sexual de Fortaleza o For Rainbow. Agora eu já coloquei uma versão dele no YouTube onde ele e seus traillers e teasers tem quase 200 mil hits. O filme mais do que se pagou. Apesar deu não ter ganho nem um tostão com ele.

P.: Você tem algum projeto para um “Algolagnia 2″? Poderia nos antecipar algo?

Eu tenho vontade de realizar mais um DOC e uma ficção dentro deste tema, mas teria de ser algo com um patrocínio estrangeiro, pois acho impossível descolar apoio para filmes nesta temática nessa quermesse. Eu gostaria de fazer uma versão focando a dominação masculina, resta encontrar os corajosos que possam ao menos ceder suas personas para realizar este filme. Sem personagens é impossível fazer este filme. Quem se habilitar pode me procurar!

P.: Vamos para um lugar comum mas imprescindível: primeiramente, agradecer muito a gentileza em conceder essa entrevista e depois, você tem um espaço para dar um alô a nossos leitores.

Eu gosto muito de falar sobre filmes, falar sobre o que eu fiz então é pleonasmo, eu gosto mesmo. A oportunidade e a confiança que tive dada por pessoas do meio BDSM foi imensa, tive a oportunidade de conhecer e fazer algumas amizades bastante sinceras. Agora eu realizei um curta experimental com apoio de pessoas do meio, o filme é bem ousado tanto em dramaturgia, quanto em realização de imagem, já estou distribuindo para festivais e ele se chama Bar AKA, é sobre um ponto de encontro de fetichistas. Um bar onde as pessoas se reúnem para assistir uma performance e depois irem para a noite. A idéia é mostrar gente “estranha” fazendo coisas comuns. Espero que as pessoas curtam.

NÃO DEIXEM DE VER:

TEASERS E MATERIAL ON LINE “ALGOLOGANIA”

http://www.youtube.com/watch?v=DQqEt-iJVWk

http://videolog.uol.com.br/video?277250