Arquivos Diários: Maio 9th, 2008

-LITERATURA

Essa pergunta admite várias respostas porque GOR não se limita a uma única compreensão. A forma mais simples de responder talvez seja dizendo que GOR é um mundo de ficção, criado pelo filósofo e escritor John F Lange, sob o pseudônimo de John Norman. Nesse planeta ele ambienta sua série de 26 livros conhecidos também como “As Crônicas da Contra-Terra”. Em GOR, a escravidão é instituída e bem aceita como um dos três pilares da sociedade. As escravas Goreanas são conhecidas como kajiras e pertencem, sem qualquer reserva ou condição, a seus Mestres.

Os livros de John Norman não estão mais sendo publicados. Nos Estados Unidos, a editora de John Norman sofreu grande pressão e vários boicotes até falir por completo. Com medo de terem o mesmo fim, os editores passaram a rejeitar essas obras. A ilusão da liberdade de expressão na América foi desmentida por esses eventos. Há uma frase de John Norman bastante conhecida: “Não é preciso queimar os livros se os impedimos de serem publicados”.

-GRUPOS GOREANOS

Os leitores, fascinados pela idéia e pela filosofia contida nos livros, criaram grupos em diversos países. As sociedades Goreanas tem crescido e se espalhado pelo mundo em três formatos: Algumas delas são puramente virtuais e realizam sua existência apenas em salas de chat onde a liturgia Goreana é a regra obrigatória. Isso é chamado de “Online Gor” e é um ótimo meio para se aprender um pouco mais sobre o tema (ainda que de maneira superficial). Alguns grupos reais também vivem como em um jogo, aplicando regras tal como se apresentam nos livros em seus encontros. Esses (tanto os virtuais quanto os reais) constituem o primeiro tipo de Goreanos, chamado de ROLE PLAYER (JOGADOR) Mas é comum que alguém que realmente se interesse pelo assunto busque, mais cedo ou mais tarde, por um aprofundamento filosófico. Isso só se dará com a leitura e análise dos livros. Existem então, para esse fim, grupos destinados ao estudo da FILOSOFIA. Por último teremos os LIFESTYLERS, que aplicam a Filosofia Goreana a sua vida quotidiana e muitas vezes em seus grupos fechados.

Esses três formatos admitem combinações e, embora dificilmente um Filósofo seja um Role Player, é bastante comum que haja algum tipo de Role Playing entre os Lifestylers, em maior ou menor quantidade, dependendo do grupo. Muitos Filósofos aplicam o que aprendem na sua vida, passando de estudiosos a Lifestylers também. As classificações servem apenas para facilitar o entendimento sobre três tendências. Porém sabemos que essas tendências, na vida real não são puras. Existe uma certa mobilidade entre os estilos

- A QUESTÃO DO MÉRITO ENTRE GOREANOS E OS TIPOS DE LEITORES

O tempo de experiência com Gor não necessariamente fará de alguém um grande conhecedor. Muitas pessoas podem permanecer em grupos não muito exigentes sem nunca compreender ao certo as implicações da Filosofia Goreana.

Uma pessoa pode ter lido vários livros da série Goreana sem nunca entender o que eles refletem. Existem dois tipos básicos de leitores: Os que lêem por entretenimento apenas e os que buscam compreender o que há por trás da história (observando o contexto histórico, a biografia do autor, o simbolismo intrínseco do livro e o uso de ironia, por exemplo). O leitor filósofo deve ver sempre além das palavras e situações descritas. O importante não é a história que se apresenta, mas o que ela quer dizer de forma mais global, como obra, crítica social e representação de certa forma de se ver o mundo.

Um exemplo clássico onde as pessoas se confundem muito frequentemente diz respeito a uma das bases inegáveis da Filosofia Goreana.Uma das grandes preocupações de John Norman é a de expressar que Homens e Mulheres são diferentes, não apenas na biologia. No BDSM, temos apeptos da FEM DOM, que acreditam na dominção como sendo papel do sexo feminino. Já para John Norman, existe uma natureza masculina e uma feminina. A masculina é a de liderança. A feminina é de submissão (resumindo-se muito, apenas para concluir). Para argumentar em favor dessa teoria, John Norman permite em seus livros a existência de Mulheres Livres e de Escravos. O objetivo é demonstrar que o ser, fora de seu lugar natural é incompleto. As mulheres livres nos livros frequentemente resenten-se por não terem a seu lado uma figura masculina forte para conduzi-las. Um ótimo exemplo disso é a Tatrix de Tharna, Lara, que governa a cidade, mas sonha com um homem que a domine. Quando Tarl (personagem condutor da saga) parte, Lara o pede para que se algum dia ele tiver interesse em ter uma escrava, que ele se lembre dela, a Tatrix de Tharna.

- O RESPEITO ACIMA DE TUDO

Um conceito muito presente nos livros é o de sinceridade sobre o que se é e sobre nossas próprias limitações. É comum a mensagem de que devemos nos conhecer e respeitar a nossa essência. O bom e velho clichê do “Seja quem você é” parece estar presente no Goreanismo. Penso que isso implica em se aceitar não somente nossa essência, mas também a forma de ser de quem nos cerca.

Como não existe imparcialidade total, por mais que tentemos obtê-la, é importante dizer que este, e qualquer outro texto meu sobre GOR não é e nem pretende ser palavra final. Para mim, Gor é muito mais do que um fetiche, e quanto mais me aprofundo na leitura e crítica, mais entendo a complexidade e abrangência dessa filosofia. Sou submissa e masoquista, mas também estudante de letras (Inglês) com ênfase em Literatura e Linguística e minha paixão por Gor vai bem além dos campos do fetiche. Penso que John Norman e os grupos que abraçaram GOR, sejam Role Players, Filósofos ou Lifestylers, fazem parte de um movimento de contra-cultura que nasceu em resposta aos excessos do feminismo e a uma criação que em muito poda a essência masculina. Havendo opção e respeito, seja qual for a forma de pensar, cada um faz suas próprias escolhas. Ser bem sucedido é ser quem você é, e não um escravo do sistema.

Well wishes!

+tavi{CS}


Tenho feito minhas leituras acerca de aspectos que envolvem o mundo BDSM. Até que involuntariamente, acabei pegando o livro “Men in Love” , de Nancy Friday, na Biblioteca aqui de minha cidade. Considerei a abordagem extremamente interessante que pode ser o “pontapé inicial” de um belo debate entre os leitores.
Como o artigo é extenso, divido-o em partes. Boa Leitura.

Fetichismo (Nancy Friday, “Men In Love” , p. 177-193 – Tradução MJB)

“Mesmo que muito do meu pensamento atual deve-se creditar à Freud, algo em mim resiste ao seu determinismo de ferro. A criança é o pai do homem, sim – mas ondo os msitérios do temperamento, personalidade, e gênio individual entram? E sobre a aleatoriedade e a herança genética? Durante o segundo rascunho desse livro, eu perguntei à digitadora o que ela pensava sobre o material. Ela disse estar “chocada ao ver o quanto do que fazemos e sentimos pode ser ligado à infância”.
Compreendi o que dizia. Não é todo ser humano algo mais do que um trem de brinquedo rodando em trilhos colocados na infância? Baseei minha vida vangloriando-me de ter “feito a mim mesma”. Em retrospecto, minha recusa em dar aos ensinamentos de Freud algum crédito era a evidência da determinação em ignorar, esquece, reprimir – escolha a palavra que quiser – meus primeiros anos e as inevitáveis humilhações e traumas. Os livros que tenho escrito são uma educação dolorosa mas escolhi escrevê-los e sobre assuntos cuja gênese remeta aos primeiros anos. Algo em mim quis entender as facetas do quebra-cabeças de meu próprio comprotamento, padrões da minha viada que nenhum acúmulo através da racionalização da minha idade adulta poderia explicar.
Especialmente sobre sexualidade, resistimos à noção que nossos medos e desejos são condicionados por eventos de desenvolvimento que ocorrem muito antes de ao menos pensarmos sobre nossos amantes atuais.As teorias de Freud sobre sexualidade infaltim foram um escândalo em Viena. Mesmo a classe médica virou-lhe as costas. Hoje, não gostamos de pensar nas crianças sentindo algo na área com talco localizada entre as pernas delas.

Quem quer render-se à lisonja implícita na noção que nossos caráteres foram esculpidos por nós mesmos em uma vida de granito? Esse é o caminho auto-administrado de volta ao bem-estar superficial: o preço é alto. Se tudo que nós fazemos é um ato de vontade consciente, porque tantos relacionamentos infelizes por razões que não sabemos nominar? Com explicamos as ansiedade sexuais e as culpas, padrões de erro que se repetem sempre e sempre do mesmo jeito? É o azar que é nosso inimigo – ou a falha é nossa?
Apesar de todo o meu desejo de acreditar na escolha espontânea feita pelas pessoas, e na espontainedade, e na eficácia de remediar a vida por si só – apenas os “insights” penetrantes da teoria psicanalítica são de alguma ajuda para desvendar os mistérios do fetichismo.

(continua)